Classificaçãode áreas

Estellito Rangel Júnior

Apesar do tema já ter sido tratado em edições anteriores da revista Eletricidade Moderna, como as de número 158 e 566, durante as auditorias, frequentemente são encontrados pontos inconsistentes nos procedimentos de segurança e nos documentos de classificação de áreas de uma unidade industrial.

O estudo de classificação de áreas é composto por dois módulos: 1) conjunto dos desenhos em planta baixa e cortes; e 2) Memorial Descritivo, que deve descrever todas as justificativas para as extensões definidas para as zonas 0, 1 e 2, assinaladas nos desenhos.

Situações encontradas

A seguir, são ilustrados alguns exemplos encontrados na prática de auditorias.

Exemplo 1

A figura 1 mostra a sala de um motogerador de emergência, a óleo diesel, junto ao seu tanque de diesel, TD-501, encontrado em uma planta industrial.

A classificação definida para a área foi:
— Na base do TD-501, até 0,6 m de altura, raio de 3 m, zona 2 IIA T3;
— Ao redor do TD-501, acima de 0,6 m, raio de 1,5 m, zona 2 IIA T3;
— Ao redor do TD-501, acima de 0,6 m, raio de 1,0 m, zona 1 IIA T3.

Comentário

Não foi apresentado um Memorial Descritivo para a definição das áreas classificadas, mas a “Nota 09” dizia que:

“Nota 09:
Considerando-se que:
A) gerador é um equipamento com combustão controlada, onde a substância
combustível é queimada;
B) este equipamento deve ser considerado como fonte de ignição permanente, devidoao fato de apresentar superfícies quentes;
C) uma ocasional liberação de substância combustível (vazamento) de alguma fonte de liberação no equipamento, ou adjacente a este, pode formar atmosfera explosiva, gerando um risco iminente
de explosão;
D) risco de vazamento é controlado com técnicas adequadas de conexão de tubulações, como soldagem, e sob efetiva manutenção preventiva;

Conclui-se que o equipamento é considerado como “não classificado”, desde que sejam mantidas as condições citadas.


Obs.: área classificada pela presença do tanque diesel. Relocar tanque diesel para área externa
afastado de fontes de ignição (d > 3 m)”.

Fig. 1 – Sala de gerador de emergência

Neste caso, o estudo atribuiu que um eventual vazamento de óleo diesel geraria uma atmosfera explosiva (concentração do vapor inflamável acima do respectivo LIE), que se estenderia até 3 m das paredes do TD-501, porém não detalhou as influências da ventilação do local na definição desta distância.
A consideração “equipamento não classificado desde que sejam mantidas as condições citadas” gerou certa confusão, haja vista que geradores em áreas classificadas precisam atender requisitos construtivos específicos, o que não era o caso.

Exemplo 2

A figura 2 apresenta um posto de recarga de baterias de empilhadeiras.

Não foi apresentado um Memorial Descritivo, e a classificação para a área foi definida na “Nota 01”.

“Nota 01:
Considerando-se que:

A) a ventilação natural existente no local é suficiente para diluir a atmosfera explosiva de hidrogênio abaixo do LII;
Conclui-se que a carga de baterias é considerada como “não classificada”, desde que sejam mantidas as condições citadas”.

Fig. 2 – Carga de baterias

Comentário
A ausência do Memorial Descritivo, que deveria conter o detalhamento do modelo de bateria, do regime de carga e do grau de ventilação do local, coloca em dúvida se realmente “a ventilação natural existente no local é suficiente para diluir a atmosfera explosiva de hidrogênio abaixo do LII”.

Exemplo 3

A figura 3 mostra a classificação dada a um laboratório químico.

Não foi apresentado um Memorial Descritivo, e a classificação para a área foi definida na “Nota 16”.

“Nota 16:
Considerando-se que:

A) fogão é um equipamento com combustão controlada, onde a substância combustível é queimada;

B) este equipamento deve ser considerado como fonte de ignição permanente, devido ao fato de apresentar chama aberta;

C) uma ocasional liberação de substância combustível (vazamento) de alguma fonte de liberação no equipamento, ou adjacente a este, pode formar atmosfera explosiva, gerando um risco iminente de explosão;

D) risco de vazamento é controlado com técnicas adequadas de conexão de tubulações, como soldagem, e sob efetiva manutenção preventiva;

Conclui-se que o equipamento é considerado como “não classificado”, desde que sejam mantidas
as condições citadas”.

Figura 3: Laboratório

Comentário

A ausência do Memorial Descritivo, que deveria conter o detalhamento dos dispositivos de segurança contra liberação de gás pelo fogão em caso de mau funcionamento, colocou dúvidas sobre a não-classificação da região. A consideração “equipamento não classificado desde que sejam mantidas as condições citadas” gerou certa confusão com o cliente.

Conclusão

Esses três exemplos ilustram os riscos que recaem sobre as empresas em função de estudos de classificação de áreas deficientes. E, realmente, se o processo de contratação avaliar apenas o menor preço, há grandes chances do produto entregue não refletir corretamente os riscos presentes na instalação.

Diferentemente do fornecimento de produtos, a quantidade de estudos de classificação realizados e a fama dos clientes anteriores, por exemplo, não são parâmetros confiáveis para uma contratação correta. O recomendado é contar com um consultor especializado para fazer a análise e aprovação das propostas, que avaliará, dentre outros fatores, as especializações adquiridas pelos responsáveis técnicos indicados pelas empresas.

Um estudo de classificação de áreas confiável é fundamental para a permanência da empresa no mercado, pois apenas uma explosão pode encerrar suas atividades.

Por Estellito Rangel Júnior em REVISTA Eletrecidade moderna em maio 2025