Atualização enviada à ABNT, inclui dados de satélites e sensores de superfície para aprimorar mapeamento de Ng, atualiza materiais condutores e incorpora práticas internacionais mais recentes
Após quase uma década da última publicação, a ABNT NBR 5419, norma que estabelece diretrizes para a proteção contra descargas atmosféricas, receberá, em breve, uma atualização, fruto do trabalho da Comissão de Estudos CE-64:10. Com estudos já finalizados, entre os principais pontos propostos pela Comissão, está o reajuste dos valores de Ng, indicador que representa a densidade de raios por quilômetro quadrado ao ano, agora estimado com base em dados mais abrangentes e metodologias técnicas aprimoradas. O texto revisado já foi enviado à Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e deverá ser disponibilizado para consulta pública nos próximos meses. A proposta é resultado de anos de trabalho da comissão, que analisou dados, revisou conceitos e buscou alinhar a norma brasileira às melhores práticas internacionais.
Com a atualização da norma, os valores de Ng passarão a ser estimados por município, e não mais por pontos de grade, como na versão anterior. A metodologia empregada para essa nova definição foi desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que liderou o aprimoramento técnico dos critérios de cálculo. A recriação dos mapas contou com o apoio da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), que aplicou os novos parâmetros na geração dos dados.
Um dos responsáveis pelo processo, Kleber Naccarato, pesquisador titular do INPE e especialista em descargas atmosféricas, detalha a metodologia adotada para o novo cálculo de Ng. Segundo ele, a base da análise foi construída a partir de dados do sensor LIS (Lightning Imaging Sensor, em tradução: sensor de imagem de raios), que operou a bordo do satélite TRMM, da NASA, entre novembro de 1997 e abril de 2015.
“Os dados-base para criação dos mapas são do sensor LIS, que operou a bordo do satélite TRMM da NASA de novembro de 1997 a abril de 2015. Dados recentes de raios provenientes de redes de sensores de superfície, as quais possuem maior precisão e fornecem um detalhamento maior dos raios, foram utilizados para validar a nova metodologia de cálculo, produzindo assim valores de Ng mais realísticos, especialmente nas regiões onde o Ng estava subestimado”. O projeto de construção do novo mapa foi abraçado pelo Programa de Pós-Graduação em Física Ambiental da UFMT, sendo também conduzido pela Professora Daniela Maionchi, e pelo mestrando Walter Aguiar, que trabalharam em parceria com o INPE.
Doutor e pesquisador da UFMT, o professor Danilo de Souza, que é coordenador do Núcleo interdisciplinar de Pesquisas em Planejamento Energético (NIEPE) e especialista em descargas atmosféricas, também participou da elaboração dos novos mapas de densidade de descargas, em parceria com o INPE, e classifica como “importantes”, as atualizações feitas na norma. “Não se trata de uma ruptura, como ocorreu na atualização de 2015, mas há mudanças significativas, especialmente no mapa de densidade de descargas e nos critérios de gerenciamento de risco”, explica. Para o pesquisador, atualizações normativas são necessárias diante de três fatores principais: o avanço tecnológico, os resultados de pesquisas científicas e as práticas observadas desde a publicação anterior.
Responsável por reunir e apresentar as propostas de alteração na norma do Grupo de Trabalho 3 (GT-3), no que diz respeito aos danos físicos e materiais, o Comitê contou com a relatoria do engenheiro eletricista José Barbosa, especialista em proteção contra descargas atmosféricas. Segundo ele, o objetivo central da revisão é atualizar a NBR 5419, alinhando suas diretrizes às práticas internacionais mais recentes. O principal referencial adotado pelo grupo foi a norma IEC 62305, publicada em novembro de 2024, que orienta os sistemas de proteção em diversos países.
“As normas IEC são um resumo de práticas consolidadas no mundo. As potências da engenharia mundial participam da sua construção. A IEC 62305 foi atualizada em 2024 e entendemos que nela há contribuições de boas práticas que poderíamos aplicar na NBR 5419. Logo, pegamos essas práticas e incorporamos ao texto do projeto para a nova NBR5419”, afirma Barbosa.
A proposta de revisão da NBR 5419 já foi encaminhada à ABNT e aguarda abertura de consulta pública, prevista para os próximos meses. Nesta fase, profissionais e instituições do setor elétrico poderão fazer contribuições ao texto, que poderão ou não ser incorporadas ao documento.
ANÁLISE DE RISCO
Outra alteração de grande impacto trazida pela revisão da NBR 5419 diz respeito à análise de risco, especialmente com a atualização do mapa brasileiro de incidência de raios. Conforme explica Normando Alves, especialista em SPDA, diretor da Termotécnica e membro da comissão da NBR 5419 há mais de três décadas. “O mapa que determina estatisticamente a quantidade média de raios que caem por município estava muito ultrapassado. Com a atualização, percebemos que em muitas regiões o número de raios praticamente dobrou em relação à norma de 2015. Uma das grandes mudanças é essa, a análise de risco mudou”, esclarece.
Segundo o especialista, essa mudança implica diretamente na reavaliação de projetos já realizados, com base na versão anterior da norma. “Se você fez um projeto seguindo a NBR 5419:2015 e concluiu, com base na análise de risco, que não precisava de pararaios, ao refazer esse cálculo hoje, provavelmente vai precisar. Eu digo provavelmente porque não é obrigatório. São recomendações técnicas, não imposições legais”, acrescenta.
Para Normando, essa atualização representa também uma oportunidade. “Existe um mercado que se potencializa com a nova norma, que é a revisão de projetos existentes. Para os profissionais da área, surgem mais oportunidades de aplicar engenharia nesses projetos. E os novos, claro, seguirão as novas regras”.
As novas especificações da norma, segundo José Barbosa, deverão nortear alterações relevantes em projetos atingidos pela norma. “Projetos em desenvolvimento deverão ser atualizados, instalações em execução ou já concluídas poderão seguir a versão anterior, embora seja recomendável a atualização, que nem sempre implica aumento significativo de custos. A versão anterior trouxe grandes mudanças e, após dez anos de aplicação, permitiu ajustes pontuais”.
PROTEÇÃO DOS EQUIPAMENTOS E INTEGRAÇÃO ENTRE SISTEMAS
Além das atualizações nos critérios de gerenciamento de risco e nos mapas de densidade de descargas elétricas, a revisão da norma reforça a importância da proteção dos sistemas elétricos e eletrônicos internos contra surtos induzidos por descargas atmosféricas. Neste contexto, os Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS), ganham destaque como parte integrante das estratégias de mitigação de danos.
Sérgio Santos, especialista em proteção contra surtos, consultor da Embrastec e membro da comissão revisora, ressalta que a correta especificação e aplicação dos DPS deve considerar toda a lógica estrutural da norma. “Da forma indicada nas partes 3 e 4 da norma, que levam justamente em conta este aspecto, do ponto de vista do projetista, a especificação do DPS começa na parte 2, gerenciamento de risco, seguindo nas partes 3 e 4. O DPS integra tanto o SPDA, quanto o MPS (Medidas de Proteção contra Surtos)”, explica.
Essa visão apontada pelo especialista reforça o entendimento de que a proteção contra descargas atmosféricas não se limita ao para-raios ou ao sistema de captação externa, mas abrange também as medidas de proteção internas e coordenadas, como o uso de DPS, para garantir a continuidade das operações e a segurança dos equipamentos e das pessoas.
BASE TÉCNICA X USO DE MATERIAIS
Mesmo com a revisão em andamento, a base técnica da norma técnica sobre proteção contra descargas atmosféricas permanece inalterada. Os três métodos de captação (Franklin, gaiolas ou malhas, e esfera rolante) seguem como pilares do sistema de proteção, reconhecidos internacionalmente e tecnicamente consolidados. Estes protocolos servem para definir a área de cobertura de um sistema de proteção contra raios, ou seja, ajudam a determinar onde os captores devem ser posicionados e qual o raio de proteção oferecido por eles.
O Método do ângulo (ou Franklin, como era chamado antigamente) considera um ângulo específico de proteção em relação à altura do captor. É uma solução rústica, baseada no método da esfera rolante, para estruturas de pequeno porte. Já o método das malhas consiste na instalação de uma rede de condutores metálicos sobre a cobertura da edificação, formando o topo do que se conhece como uma “gaiola de Faraday”. Essa configuração permite que a corrente da descarga atmosférica seja distribuída por diversos caminhos, reduzindo riscos e garantindo maior segurança, sendo ideal para galpões redução do impacto estético nas edificações. Por fim, o método da esfera rolante, conhecido também como eletrogeométrico, utiliza uma esfera imaginária com raio definido que “rola” sobre a estrutura analisada. Os pontos tocados por essa esfera são considerados suscetíveis ao impacto direto de raios, sendo esse o método mais preciso, recomendado principalmente em projetos complexos ou de grande porte.
Apesar da manutenção da base técnica dos métodos de captação, a revisão da norma trouxe alterações relevantes em outras frentes, como nos materiais dos subsistemas de captação, descida e aterramento, conforme explica o especialista Normando Alves. “Entre as mudanças, está a inclusão do cabo de aço cobreado. O cabo de aço galvanizado já era previsto na norma, mas o cobreado ainda não constava e agora foi incorporado. Trata-se de um avanço, pois esse material é amplamente utilizado no mercado, principalmente por reduzir os riscos de furto. O cabo de cobre, quando instalado, costuma ser alvo de roubo. Já o cobreado, por ser composto por cerca de 90% de aço e apenas revestido com uma camada de cobre, não atrai tanto interesse para esse tipo de crime”, explica.
Segundo o especialista, a nova edição também ampliou significativamente a abordagem voltada à proteção da vida. “A segurança pessoal nunca teve uma dedicação tão grande como está tendo com essa nova norma”, afirma. A norma passa a exigir maior atenção à mitigação de tensões de toque e de passo, com impacto direto na concepção de sistemas mais seguros. “Com base nos novos requisitos, o mercado desenvolveu produtos voltados à mitigação de tensões de toque e de passo, com foco direto na preservação da vida humana”, complementa.
Para Normando, as atualizações refletem um movimento natural de evolução técnica e trazem benefícios para toda a cadeia envolvida: “Sempre que uma norma é atualizada, surgem exigências mais rigorosas, e isso movimenta o mercado de instalações, fabricantes, engenheiros, ou seja, todo o setor é impactado. No fim, o cliente final ganha em segurança, e toda a sociedade se beneficia de sistemas mais eficazes e confiáveis.”
HISTÓRICO DA ABNT NBR 5419
A NB-165 foi a primeira norma nacional que tratou da proteção contra descargas atmosféricas. Redigido entre a década de 1940 e 1950, o documento possui seis páginas e teve como base as normas da Bélgica e representou um marco inicial na normatização do tema no país.
A primeira revisão ocorreu em 1970, incorporando influências de documentos norte-americanos. Já em 1977, foi publicada a segunda revisão, quando o texto passou a ser denominado oficialmente como NBR 5419 – Proteção de estruturas contra descargas elétricas atmosféricas. Nessa versão, a norma teve seu conteúdo expandido para 16 páginas, refletindo a evolução do conhecimento técnico sobre o assunto.
A terceira revisão veio em 1993, com a fundamentação da norma IEC 61024-A e B, conferindo maior aderência aos padrões internacionais. Essa edição permaneceu em vigor até 2001, quando foi publicada uma nova versão, com atualizações dos avanços técnicos do período. Em agosto de 2005, a norma passou por mais uma revisão, mantendo a estrutura anterior, mas incorporando aprimoramentos importantes com base na experiência acumulada na aplicação da norma no Brasil.
A mudança mais significativa, no entanto, ocorreu em 2015, com a publicação da ABNT NBR 5419. Dividida em quatro partes: princípios gerais; gerenciamento de risco; danosas físicas a estruturas e perigos à vida; e sistemas elétricos e eletrônicos internos à estrutura. A atualização de 2015 adotou integralmente os conceitos da IEC 62305, promovendo uma reestruturação completa da norma brasileira e ampliando sua abrangência, especialmente nos temas de análise de risco e proteção interna.
Por Matheus de Paula em revista O setor elétrico ed 211 em 2025
